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AMOR E AUTONOMIA

  • Foto do escritor: Jacqueline Gagliardi
    Jacqueline Gagliardi
  • 19 de jun. de 2023
  • 4 min de leitura

Penso que algumas coisas não precisariam ser diferenciadas em argumentos, visto que a experiência direta delas deveria ser suficiente para não restar dúvidas, como a diferença entre o preto e o branco. Mas existem pretos que são mais pretos e brancos ainda mais brancos, que quando postos um ao lado do outro ficamos perdidos. Assim acontece também entre o amor e o ódio. Parecemos que sabemos os diferenciar, mas no instante em que a vida acontece diariamente nas nossas relações, eles parecem se confundir.

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A linha definitiva entre amor e ódio parece ser a permissão do livre-arbítrio. O amor concede liberdade, permite que cada ser faça as suas escolhas, todas, inclusive as decisões tomadas sob a espessa escuridão da ignorância.


Num ponto de vista espiritual, esse parece ter sido o motivo de estarmos todos aqui nessa dimensão. Um dia fizemos a escolha de conhecer o bem e o mal, comemos o seu fruto e estamos todos até hoje digerindo o gosto amargo da separação do amor incondicional. Foi a nossa escolha e o amor permitiu. Como poderia ser diferente? Se nos impedisse, se nos impusesse limitações, se nos restringisse, paralisaria o movimento incessante de desenvolvimento da vida e a força que retira de nós a autonomia não é o amor, mas o ódio.


Conta-se que um dia o rei Arthur fora abordado por um terrível cavaleiro que buscava vingança pela perda de suas terras. O nobre rei recebeu a chance de salvar a própria vida com a condição de que em um ano ele retornasse ao mesmo local com a resposta a seguinte pergunta: “O que é que as mulheres mais desejam acima de tudo?”. Sua vida poderia ser poupada se encontrasse a resposta correta. Após muitas pesquisas que durou quase um ano todo e ainda não estar realmente satisfeito, Arthur se deparou, em uma cavalgada pelos bosques, com uma enorme e grotesca mulher, a irmã do terrível cavaleiro. Ela sabia da agonia do rei e que ele ainda não tinha a resposta certa. Ela ofereceu a ele a resposta definitiva, com a condição de que o seu melhor cavaleiro se tornasse seu marido por sua própria vontade. Ao retornar ao seu castelo, Arthur encontrou Parsifal, e esse, que era o seu melhor cavaleiro, ficou encantando com a oportunidade de servir ao rei, salvando-lhe a vida. Todos os preparativos da festa foram feitos e Parsifal casou-se com lady Ragnell. Quando o noivo após a celebração beijou a noiva em seus aposentos, ela se transformou em uma bela e esbelta jovem, de rosto sereno e sorridente. Ragnell vendo a surpresa do marido, contou que recebera do seu irmão postiço um feitiço que só poderia ser quebrado quando o melhor cavaleiro da Bretanha a escolhesse de bom grado. Contou também que seu irmão a odiava por ela ser ousada e repetidamente se recusar em obedecer às suas ordens. Mas ela advertiu o esposo que o feitiço havia sido quebrado apenas em parte e que ele deveria escolher como ela seria: se na própria forma à noite e na antiga e grotesca forma de dia ou se preferia o contrário, tê-la feia à noite no quarto e na sua forma bela no castelo durante o dia. Parsifal pensou por um momento e se ajoelhou diante dela, tocando a sua mão lhe disse que essa era uma escolha que deveria ser apenas dela e que qualquer que fosse a sua escolha, ele a apoiaria. Com essa resposta, Parsifal quebrara completamente o feitiço. A condição para ser completamente anulado, era o seu marido lhe conceder livremente o poder de escolha, para que ela exercesse o seu livre-arbítrio. Arthur teve a sua vida salva ao compreender que o maior desejo das mulheres é o poder da soberania, o direito de exercer a própria vontade.


Essa história nos fala sobre a forma de vencer um sistema equivocado de ódio, autoritarismo e repressão, pela concessão do amor, na sua forma de autonomia, liberdade e livre-arbítrio. O conto medieval é claro, mas a ignorância se infiltra nas menores brechas.


Muitos de nós, já cansados desse jogo da ilusão e da experiência da dualidade do bem e do mal, estamos verdadeiramente em busca da saída, desejando enxergar novamente além do véu de maha maya. Outros, no entanto, ainda permanecemos na falsa diversão da experiência. Porém, entre uns e outros, estamos todos misturados e confundidos. Por mais que saibamos que a Terra é redonda, ainda escolhemos lados para estar, como se quadrada fosse.


A diferença entre amor e ódio é percebida mais claramente não tanto nos valores que defendemos, mas como os defendemos e a ignorância de si mesmo é a linha que enovela uma coisa na outra.


Um rápido exemplo de como misturamos os dois em nossa vida diária: com a melhor das boas intenções em ajudar àqueles que nos são importantes, podemos impor nosso ponto de vista e tomar as decisões por eles. Assim pode haver uma jovem pessoa que entende que não precisamos mais de remédios da medicina convencional, que os alimentos e a respiração são a base da nossa saúde e que só precisamos dos recursos disponíveis na natureza, e, baseada no seu entendimento do que é melhor, se irrita com os seus pais, que cresceram em outra época e sob outras influências culturais, porque vão à farmácia comprar suas vitaminas e ansiolíticos. Por mais clara que seja a sua visão integrativa de saúde, essa pessoa está ainda equivocada em como funciona o amor. Se aquele que está na ignorância te inflama raiva, a raiva venceu.


Entendo o amor como a mãe corajosa que mesmo diante das óbvias escolhas equivocadas dos seus filhos, permite o direito de eles experimentarem as suas decisões e colherem as suas consequências. Mas que está sempre por perto e atenta, deixando disponíveis pelo caminho as pistas para que retornem para casa e ao menor sinal de arrependimento, estende os seus braços e os acolhe sem julgamentos.


Por isso, uma das faces mais brilhantes do amor se chama autonomia, aquela força que respeita o tempo de cada um em aprender as próprias lições e de evoluir. Todos estamos aprendendo alguma lição e a existência amorosamente nos concedeu o direito divino e alienável de errar.


Referência da história do Rei Arthur: A Jornada da Heroína de Maureen Murdok

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